Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?
O espelho responde:
Não, tu és a mais bela dentre todas.
A rainha, satisfeita, sorri, se enfeita, faz uma refeição para toda a nobreza, abraça sua enteada e canta enquanto toca seu piano. A bondade e a beleza encantam a todos que a olham, admirados com a rainha maravilhosa que têm.

Duas semanas depois.
Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?
O espelho responde:
Não, tua beleza reina entre os sete reinos e te torna a única e bela flor.
A rainha majestosa alimenta patos no lago, dá pães aos necessitados, dança e pula alegremente. Os plebeus sorriem e admiram a rainha, caridosa e amada por todos.
Que sorte temos por termos uma rainha tão maravilhosa, dizem.

Um mês depois:
Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?
Mas, nesse dia, algo havia mudado, e ele responde:
Sim, Branca de Neve é a mais bela em matéria e espírito. Seus cabelos negros como a noite, sua pele branca e de textura macia como plumas de ganso, olhos angelicais, majestosos e encantadores, uma voz que traz inveja aos rouxinóis e a bondade celestial.
A rainha, enfurecida, pega uma de suas cadeiras e quebra o espelho. Grita e se desespera, pois não é a mais bela.
Ao olhar pela janela, vê sua enteada, Branca de Neve, dançando com os camponeses, esses mesmos a quem ela havia dado pão.
Guardas! Grita a rainha e diz:
Prendam todos os camponeses que estão fazendo baderna em meu reino.
Nesse ponto, suas vestes azul-turquesa já haviam se tornado negras. Cresciam uma pequena corcunda em suas costas e algumas verrugas em seu rosto.

Caçador, mate Branca de Neve e traga seu coração ainda pulsando dentro desta caixa mágica, diz a rainha.
O caçador leva-a para a floresta escura e aponta uma espingarda para seu peito. Mas o olhar de Branca de Neve quebra a dureza em seu coração. Ele a manda fugir e leva o coração de uma raposa dentro da caixa, e a rainha se alegra. Mas não se alegra como antes, pois sua risada é estridente e rouca.

Aquela jovem rainha de cabelos avermelhados, olhos verdes, olhar penetrante e voz angelical. Aquela que todos admiravam e amavam, julgando ser a rainha mais bondosa e leal aos seus súditos, já não existia mais.
Seu corpo cadavérico, cabelos brancos e arrepiados, uma corcunda gigante, verrugas espalhadas por todo o corpo, voz envelhecida e roupas puídas haviam tomado o seu lugar.
O reino era triste, a fome imperava, o lago dos patos secou, as flores já não brotavam, enquanto a rainha, na torre mais alta de seu castelo, se escondia de vergonha pela sua aparência medonha.

Mas o que houve com a rainha, que se transformou nesta bruxa horrenda e maldosa?
Perguntou um dos guardas à arrumadeira, e ela lhe respondeu:
Tudo aconteceu, pois ela ouviu o que não queria. É fácil ser amada quando todos concordam com você.
Quem você é quando discordam de você?
