INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL · OPINIÃO

Emburrecimento
coletivo

O maior perigo talvez não seja a inteligência artificial substituir nosso trabalho, mas substituir o esforço que mantém nossa capacidade de pensar.

Por Douglas Marques · 27 de agosto de 2026
Pessoas entregando textos a uma estrutura algorítmica abstrata

As IAs chegaram para mudar o mundo, levando a evolução humana e tecnológica para outro nível. Nível esse que, sem elas, demoraríamos anos a fio para alcançar.

Muitos se preocupam com seus empregos, pois as IAs estariam supostamente tomando seus lugares. Mas, verdade seja dita, como em qualquer evolução tecnológica que nos faz dar um salto gigantesco, temos que nos reinventar para não ficarmos para trás.

Doenças sendo curadas, pessoas voltando a andar, empresas crescendo, pessoas se destacando. Não há dúvidas de que os benefícios são grandiosos. Mas existe um custo.

Nas universidades, pouco se vê um texto ou trabalho que não tenha o auxílio das IAs. Desenvolvemos IAs para perceber quando outras IAs são usadas em textos, vídeos e fotos, mas, com isso, também foram desenvolvidas IAs para humanizar e retirar padrões de IA.

Recentemente, vi uma matéria na qual um professor pregou uma peça em seus alunos. Ele deixou um parágrafo invisível no texto que passou para seus alunos on-line. Como ele fez isso?

Simplesmente, o professor escreveu, na cor branca, um determinado prompt. Por ser branco, ele se tornava invisível aos olhos humanos, mas não para os supercérebros eletrônicos.

Dessa forma, o professor em questão descobriu que 100% de seus alunos haviam usado IA.

Três em cada cinco pessoas, em nosso país, usam inteligência artificial, seja para tarefas do dia a dia, como fazer uma lista de compras e cálculos básicos, seja para a análise de dados. Com isso, pouco se escreve manualmente e pouco se pensa, pois não se faz necessário. Mas, assim como acontece com uma língua estrangeira que aprendemos e esquecemos quando não a praticamos, funciona o nosso cérebro. Se não pensamos e não fazemos o mínimo esforço para criar um simples texto, ele esquece como criar.

E assim caminha a humanidade hoje, sem precisar aprender grandes coisas, pois tudo já está feito com o prompt correto. Prompt esse que a própria IA cria. Ou seja, hoje, até o prompt para guiar a IA é criado pela própria IA.

Mão humana escrevendo enquanto sua sombra assume uma forma tecnológica
Quando a ferramenta deixa de apoiar o pensamento e passa a substituí-lo.

Como diz o provérbio popularizado pelo escritor G. Michael Hopf: “Tempos difíceis criam pessoas fortes; pessoas fortes criam tempos fáceis; tempos fáceis criam pessoas fracas; e pessoas fracas criam tempos difíceis.” Será que estamos nos tornando essas pessoas fracas que trarão à tona tempos difíceis?

Até onde irão nossa dependência e nosso emburrecimento?

Não protesto contra o uso das IAs. Reconheço, como disse no início desta resenha, a total importância desses avanços tecnológicos, que só foram possíveis graças ao uso das inteligências artificiais. Mas a questão é: muitas pessoas se preocupam se as IAs irão substituí-las em seus empregos, quando o maior perigo é que substituam nossos cérebros. Nesse momento, não estaremos mais usando as IAs, pois elas é que estarão nos usando.

Pessoa diante de uma interface que discretamente conduz seus movimentos
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