Uma gota de orvalho, caída da pétala de um girassol em direção à terra, me criou.
Posso ver, posso sentir, mas ainda não sei quem sou. Olho ao redor e observo a imensidão em que estou imersa. Vejo pássaros, castores, libélulas e caracóis, mas não me sinto como nenhum deles.

Peixe não sou, pois não estou na água. Será que posso voar?
Dou um salto, mas volto ao chão.
Tento novamente e sinto algo vibrar nas minhas costas. Continuo saltando e saltando, mas não sou um sapo.
Arrisco mais uma vez e começo a pairar no ar.
Bem, será que sou um pássaro?
Mas seria estranho ser um pássaro tendo braços e dedos.
Subo cada vez mais alto e vejo um gavião voando em minha direção. Será que ele virá me cumprimentar?
Acho que ele está rápido demais. Por que está abrindo o bico?
Vou me esconder. Acho que ele quer me comer!

Observo ao redor e percebo que o perigo passou. Subo novamente e contemplo o que existe abaixo de mim. Saem faíscas do meu corpo. Faíscas luminosas.
Serei eu um vagalume?
Subo mais e mais, mas o ar começa a entrar pesado em meus pulmões.
Esse mundo é lindo, mas me sinto tão só.
Pergunto ao caramujo, à borboleta e à lagarta, mas parece que eles não sabem falar.
Será que eu sei?
Até então, estou apenas pensando.
Tento falar, mas nenhuma voz sai, apenas um chiado fino. Mas como posso saber tanto sobre tudo e nada ao mesmo tempo?
Sei o nome dos animais, sei o que é a natureza, reconheço quando devo temer e, instintivamente, consegui voar, mesmo sem saber exatamente como. Mas como posso saber tudo isso e desconhecer o básico: quem sou?
Se penso, então existo. Mas existir sem saber quem sou ou a que pertenço seria realmente existir?
Olho ao redor e avisto pequenos seres, assim como eu. Eles têm asas nas costas, soltam faíscas e têm braços.
Aproximo-me daquelas pequenas criaturas e pergunto quem são. Elas me respondem, mas não vejo suas bocas se mexendo.
Quem são vocês?
Somos fadas.
Então eu já descobri. Também sou uma fada!
Não, você não é uma fada!
Espanto-me. Como podem ser tão parecidas comigo e, ainda assim, eu não ser o que elas são?
Como vocês nasceram? Pergunto.
Nascemos do primeiro sorriso de um bebê humano. E você?
Bem, eu nasci de uma gota de orvalho que caiu da pétala de um girassol em direção à terra. Brotei do chão, pulei algumas vezes e voei.
Então não tem como você ser uma fada, disseram.
Mas eu voo como vocês, saem faíscas de mim e tenho braços. Sou como vocês!
Não, você não é como a gente. Você é diferente, disseram.
Em que sou diferente?
Em tudo! Nossa pele não é luminosa como um diamante, igual à sua. Você voa, mas não tem asas, completaram.
Como não tenho asas, se sinto algo vibrar nas minhas costas?
São pequenas estrelas que você tem. São elas que produzem suas faíscas. As nossas vêm do pó mágico que retiramos do éter.
Então, o que eu sou?
Nós não sabemos. É a primeira vez que vemos alguém como você.
Paro. Respiro. Olho em todas as direções e me lamento por estar só.
Se sou um novo ser, não tenho um nome. Mas e quem me criou? Será que esse alguém me deu um nome?
Todas as fadas voltam seus olhos para mim. A principal delas se aproxima e diz:
Você se criou sozinha!

