Comportamento humano · Douglas Marques

MERCADO DOS AMORES

Entre exigências, aplicativos e encontros frustrados, uma pergunta atravessa o mercado dos amores: o que cada um tem a oferecer?

Adultos observam retratos idealizados em vitrines de uma galeria, entre reflexos e possibilidades de encontro.
Ilustração editorial

Quando perguntamos para alguém sobre como seria a mulher ou o homem ideal, são quase unânimes as respostas.

Quem busca mulher quer uma mulher inteligente, magra ou malhada, cabelo bonito, que se cuide, faça as unhas, se depile, que tenha uma vida saudável... Quem busca homem quer um homem de corpo atlético, que seja inteligente, tenha carro, casa própria, seja rico, entre outras coisas.

O desejo pode ser genuíno, mas, se pararmos para analisar, grande parte dessas pessoas é pobre, fora do padrão, com sobrepeso ou peso pena (esqueléticos), mal sabe sustentar um assunto interessante, uma conversa sobre algo que não seja uma total futilidade.

Jurandires e Jurandias, que acham que merecem o melhor. E, como disse anteriormente, o sentimento é genuíno, devemos sempre querer o melhor mesmo para nós.

A questão é que o outro também busca o melhor. Com isso, o que essas pessoas vão entregar?

Vejo pessoas fora do padrão querendo o padrão e reclamando do preconceito do padrão contra elas, quando elas mesmas não querem ficar com alguém fora do padrão, como elas.

Adultos diante de uma vitrine observam roupas impecáveis enquanto seus rostos aparecem refletidos no vidro.
Ilustração editorial

É curioso, mas totalmente incoerente...

Tantos querendo que o outro entregue muito, mas com tão pouco para entregar. A conta não bate.

A lógica seria: se quero um homem ou uma mulher que se cuide, treine ou o que quer que seja, quanto à aparência, também devo me cuidar. Malhar, fazer uma dieta, manter uma rotina de skin care, me depilar.

Se quero uma mulher inteligente, preciso estudar, me informar do básico sobre acontecimentos no Brasil e no mundo. Quem sabe, fazer uma graduação ou terminar, pelo menos, o segundo grau...

Quero alguém rico? Vamos começar trabalhando? Fazendo especializações, sendo bons funcionários, para poder crescer na empresa e se destacar. Quem sabe, montar um negócio e se dedicar de verdade?

Até porque fica difícil encontrar alguém rico frequentando o barzinho da esquina, do seu João, né?

Um homem faz uma pausa no parque entre uma caminhada e a leitura de um livro, com caderno e garrafa de água ao lado.
Ilustração editorial

Com os apps de relacionamento, ficou bem mais fácil acabar topando com pessoas que, geralmente, não toparíamos no dia a dia, por não ter dinheiro, intelecto ou pela preguiça de malhar, correr ou fazer qualquer atividade física.

Escolheu? Deu match? E agora?

Digo com total propriedade: quando estava solteiro, a coisa mais difícil era manter uma conversa decente. As pessoas nunca têm assunto, e isso é um perigo, pois, de duas, uma: o assunto morre e a gente parte para o outro, ou começa o mercado de futilidades, envolvendo pedidos de fotos +18.

Um homem observa um aplicativo de relacionamento no celular, sozinho em casa numa noite chuvosa.
Ilustração editorial

Há alguns anos, conheci um médico. Pensei: nossa, médico, deve ser inteligente, teremos muito o que conversar...

Nós nos encontramos em um café, e a única coisa que ele sabia fazer era mostrar as fotos dele no celular, ficar se autoelogiando e me perguntar o que eu achava. Quando tentava entrar em uma conversa interessante, ele se perdia.

Cheguei a pensar: meu pai amado, será que ele comprou o diploma?

Ao terminar o café, paguei a conta e disse: terei que ir ao mercado, depois nos falamos. Ele quis ir junto, então eu bati no ombrinho dele e disse: hoje não! E simplesmente saí andando, pensando: nunca mais vou encontrar ninguém.

Acredito que todos já passaram por uma frustração do gênero, e olha que esse não foi nem o pior. Já aconteceram coisas do arco da velha, mas deixarei para outra prosa.

Dois homens num encontro no café: um mostra suas fotos no celular enquanto o outro espera uma conversa.
Ilustração editorial

Fato é: relacionamento é troca, amor é troca, amizade é troca. É tudo uma troca, não dá para ficar no 0 x 1.

Quando pensamos: quero que a pessoa me ofereça isso, isso e mais isso. Também devemos pensar: eu tenho a oferecer isso, isso e isso.

Dois homens conversam com atenção à mesa de uma cozinha, compartilhando café e um livro, com os celulares de lado.
Ilustração editorial

E não, não pense que só a beleza vai te abrir portas. Ela até abre, mas a aparência conta só nos primeiros 5 minutos. É como um cartão lindo por fora, mas, por dentro, escrito coisas como: "Craudio", "pobrema" e "menas". Dói a vista...

É claro que algumas pessoas têm sorte, mas não pense que será seu caso. Até pode ser, mas é 1 em 1.000.000. Então não conte com o acaso, invista em você!

Sendo assim, nesse mercado dos amores, você leva a picanha se tiver dinheiro para comprar.

A prateleira está cheia, mas, com o bolso furado, fica complicado conseguir se satisfazer.

Um homem diante das prateleiras de um mercado observa a carteira e a cesta quase vazia, enquanto um casal conversa ao fundo.
Ilustração editorial
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