Pelo direito de amar, trabalhar e ser quem é. Pelo direito de odiar, dizer o que pensa e bater na mulher.
Inflamam-se os corações, famílias destruídas e a morte de uma travesti, próximo aos Arcos da Lapa.
Um vereador se elegeu com a pauta de que mulheres trans violentariam suas filhas e esposas em banheiros públicos. A outra, mais votada, lutando contra o que deu a ela o direito de estar justamente onde está.
O gado que vota a favor dos frigoríficos. O negro que quer voltar para o tronco. O gay tentando voltar para o armário, pra poder mamar nas tetas da sociedade.

Nossas Senhoras sendo quebradas, e o fiel ateando fogo na casa de Deus. Crente, cristão que luta veementemente contra seu próprio Cristo. No mercado da fé, em nome de quem disse ser mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus, lucram cada vez mais.
Corta para Jesus voltando, e o crente gritando: comunista! Maconheiro! Arrastado pelos cabelos e sendo novamente morto pelos seus.
Depredação de centros de matriz africana. Gritos e mais gritos, até o cavalo apanhou. Mas não, coitada da menina que só maquiou a estátua. Ela estava feia, precisava de um toque feminino.
Eles dizem: quero acabar com a corrupção! Mas o escândalo das rachadinhas? E a Cacau Show? Eles dizem: mas precisamos tirar o PT. Mas é o coração que grita: pelo direito de odiar e de a Gabi voltar a ser João.
Não servem de nada, só se prostituem. São vagabundos, não querem trabalhar! Mas, senhor... diz a Suzana. Pode me dar trabalho na sua empresa? E ele responde: não! Mas deixarei minha esposa em casa e volto para te ajudar numa casinha vermelha, da Avenida Brasil.
Eles as chamam de macho, por inveja. Querem ser as fêmeas dessas que são ditas "machos". Pastor de calcinha investigando. Calcinha vermelha, mas ué? Não era contra o PT?
Pastor que está triste porque seu jatinho é do modelo passado.
E a bancada evangélica só crescendo. As minorias... E as minorias? São minorias, apenas. A maioria é que tem que ditar. A minoria tem que morrer.

Morte e morte! Glorioso é Carlos Alberto Brilhante Ustra. O pavor de Dilma Rousseff! Que morra com câncer!
Ele é nosso herói! Acabou o comunismo! Vamos matar todos.
Ditadura? Nunca aconteceu. Escravidão? Eram sem alma. Fizemos um favor! E Pindorama? Fizemos um favor! E o Orelha?
Uma discussão pelo óbvio, quando, no dia anterior às eleições, saio de casa e me deparo com pilhas de papéis jogados propositalmente na rua, pois, ao lado de minha casa, haveria eleição.
Absurdo, um ultraje. Mas quem jogou foi o 13! Não, foi o 22! Não, foram os dois! Mas estão todos morrendo de fome. O presidente prometeu picanha, mas comem abóboras.

O Brasil saiu do Mapa da Fome, depois de matéria em que pessoas entravam na fila para ganhar ossos! Mas caldo de ossos é saudável! Ninguém morreu de fome! Sim, pois estavam morrendo de COVID. O governo genocida não deu vacina para a população.

Assassinos são vocês. Querem abortar o filho da menina de 12 anos. Ela só engravidou do pai porque o seduziu.
Mas a criança cresceu, não teve educação. Onde ele está? Foi pego roubando! Então, o que fazemos? Vamos matar! Bandido bom é bandido morto!
E a menina? Ela já teve mais 3 filhos do pai... Viu como a culpa foi dela?

E onde ela está? Foi encontrada numa encruzilhada. Fazendo o quê? Morta, saiu no jornal Extra. Chamaram-na de abóbora.

Abóbora — o conto
Extra, extra, saiu no jornal. Jovem assassinada numa quinta-feira, por volta das 3 da madrugada.
Pele morena, cabelos pretos e lisos, molhados no asfalto. Os olhos ainda abertos, que gravaram o rosto de seu algoz.
Não se sabe se foi engano, vingança ou cortesia, mas, para o desfecho, pouco importa.
5 da manhã, trabalhadores saindo para iniciar o dia, e o corpo esperando. Fotos, flashes, vídeos e até um senhor que faz comentários maldosos.
Um grito estridente, um pedido de socorro e tiros foram ouvidos pela vizinhança, mas quem iria olhar?
Um padre aparece e fica incrédulo, pois era a menina que sempre se sentava na terceira fileira da paróquia do bairro vizinho, mas mal falava, muito menos se confessava.
Estava usando uma saia curta, branca e um salto-agulha. E as pessoas continuam perguntando: o que uma menina estaria fazendo sozinha na rua às 3 da manhã?
6, 7 horas, e nada de chegar alguém para buscá-la. Aquela cena era tétrica, mas, compulsivamente, as pessoas se amontoavam para ver.
Os olhos ainda abertos, e uma senhora pergunta:
De que cor são mesmo os olhos dela? Não consigo enxergar daqui.
Sem resposta, pois o interesse maior era no orifício ao lado de sua cabeça e nas marcas de unhas em um dos seios, que estava levemente à mostra.
A chuva passou, e nem sangue havia mais. Sem família, sem amigo, quem era aquela mulher?
Os olhos ainda vidrados. Parecia que sua alma ainda estava cativa naquele corpo, mesmo sem respiração e sem sangue, que fora drenado pelo bueiro redondo ao lado.
8, 9, 10 horas, e ninguém buscou o corpo. Ele permanece descoberto, com o ferimento aparente, naquela encruzilhada em T, enquanto algumas senhoras colocam cadeiras de praia próximas, esperando o desfecho.
Meio-dia, e finalmente alguém chegou. Perguntam o que houve, se sabem o nome e descobrem que ela não morava ali.
Finalmente, cobrem e retiram o corpo do local.
Só se vê um vestígio de sangue, que já havia sido, em grande parte, lavado pela chuva.
Uma criança olha e diz:
Deixaram um de seus sapatos. E agora?
Todos se olham e saem do local, sem dar atenção ao menino.
Uns se benzem, e outros correm para fofocar. Quem era aquela mulher?
Extra, extra, saiu no jornal. Meio-dia, a magia terminou. Cinderela deixou seu sapato e nunca mais acordou.
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