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SOMBRAS

Uma tarde ensolarada. Uma missa ao anoitecer. Acima da igreja, a rotina de José começa a ganhar outro contorno.

Uma igreja antiga e sua torre ao entardecer, atravessadas por uma sombra profunda

Tarde ensolarada, volta José da academia. Homem de meia-idade, calvo, com corpo atlético, 1,68 de altura e roupas com mais estampas que o necessário.

Ao chegar em casa, toma seu bom banho, escova seus dentes e prepara sua proteína enquanto vê os noticiários.

Às 18 horas, José se levanta, veste sua batina e desce para a igreja. É hora de celebrar a missa de 7º dia dos falecidos.

Padre José olha ao redor. A igreja está cheia. Algumas pessoas chorando, outras parecem aliviadas. Imagina do que eles não devem ter se livrado...

Interior de uma igreja, com um padre no altar e sombras entre os bancos

As senhorinhas vão cumprimentar o padre e levam alguns doces e comidas. Ele não come doces, pois está tentando manter a boa forma, mas aceita, até porque mais tarde iria receber uma visita.

José sobe as escadas da igreja e vai para sua moradia, que ficava no quarto andar, próximo à torre do sino. Tira a batina, toma outro banho e se perfuma. Quando batem à porta, ele abre sem tanta surpresa, pois já o aguardava. Era o padre da paróquia do bairro vizinho.

Ambos se abraçam, felizes por se reencontrarem, e Felipe beija José.

Felipe conhece José desde criança, quando era coroinha na igreja. Desde sempre tiveram uma relação bem próxima, mas relação sexual tiveram pela primeira vez quando Felipe tinha 16.

Com 18, Felipe decidiu se tornar padre e, desde então, sempre escondidos, se tornaram um casal.

José ofereceu-lhe doces que as beatas haviam trazido, mas Felipe não aceitou. Ele estava diferente de outras vezes, e José não entendia o que estava acontecendo.

Dois homens adultos diante de uma porta, separados por uma faixa de sombra

Felipe, então, esboça um pequeno suspiro e diz a José que havia conhecido outra pessoa. José não sabia, mas era um frequentador da paróquia de Felipe, que tinha a mesma idade que ele quando começaram a se relacionar de fato.

Sem entender, José o questiona, pois, mesmo vivendo um romance marginal, ambos se amavam com tanto fervor que aquele era apenas um mero detalhe.

Felipe se vai e, com ele, o amor próprio de José. Era perfeito demais para ser verdade, o padre pensava. E agora? Ficarei sozinho?

A vontade de ir à academia e se cuidar já não o tocava mais. O ânimo para celebrar a missa havia se perdido. Todos percebiam e perguntavam entre si: o que está acontecendo com padre José?

Meses de tormento se passam. Ele se olha no espelho e não se reconhece. Sua alma se perdeu em qualquer esquina, e sua mente, apenas no piloto automático. Enquanto se pergunta se estaria sendo punido por Deus, ouve as confissões de seus fiéis, de forma hipócrita, com conselhos pautados no impraticado.

Um homem exausto diante de um espelho embaçado

Aquele corpo atlético já dava sinais de sedentarismo. Em tentativa de redenção, orava 3 vezes mais que o habitual, até 5, mas o que havia se quebrado não tinha mais como ser consertado.

A masturbação diária e o vício crescente em pornografia fazem com que a culpa o preencha por completo. José tinha a certeza de que estaria sendo punido, mas seu corpo pedia por um prazer que, sozinho, ele não poderia dar.

Depois de alguns dias procurando o lugar ideal, José vai a uma sauna a 3 horas de sua igreja. Será que podem me ver aqui? Pergunta-se.

Então, ele se despe, guarda suas roupas no armário cinza e amarra uma toalha encardida e desfiada. Um chinelo furado, dado pela recepção do local, completa a vestimenta, enquanto reza 1 Pai-Nosso, 3 Ave-Marias e se benze, pensando: estou armado com as armas do Senhor e, por isso, este pecado não me consumirá.

Corredor de azulejos e armários cinza, sob luz fria

José entra em um quarto escuro, sentindo cheiro de sexo no ar. Gemidos e estalos, junto a batidas fortes, quando ouve: vai, putinha! Mesmo assustado com as palavras de baixo calão proferidas, se revigora.

Felipe havia sido a primeira e única relação homoafetiva consumada. Tudo aquilo era muito novo e, num misto de temor e desejo, estica seu braço e apalpa as partes íntimas de um desconhecido, cujo rosto ele não consegue identificar.

Como animais e sem se preocupar com prevenção ou com quem de fato eram, o padre se entrega completamente ao prazer. Ao fim do coito, José puxa o homem para fora do Dark Room e, enquanto sente aquelas mãos macias e peludas, pensa o quanto foi prazeroso e se pergunta: será que fui perdoado por Deus?

Finalmente, ao se verem, um baque, seguido por vergonha e uma certeza de que estaria, de fato, sendo punido.

José volta para casa sem dar uma palavra. Às 22, ele toma um banho; às 23, coloca suas pantufas para dormir; às 23:20, seu telefone toca, ele olha, desliga, vê uma coruja voando no céu com negras nuvens e, à meia-noite, finalmente dorme.

Uma janela noturna, uma coruja e um telefone silencioso

Às 5 da manhã, um grito. Às 6, faixas cobrindo o local. Às 9, seu irmão, com olheiras e sem saber do ocorrido, toma um choque. Às 10, Felipe chega, mas sem extrema-unção para dar, só mentiras a declarar.

O cruzeiro das almas se acendeu, a missa foi Felipe quem fez. Seu novo amante? Nem existe mais. O que restou? Ninguém nunca saberá, pois ficará apenas em família!

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